CHINAS QUER BARRAR INVESTIMENTOS NO EXTERIOR

Publicado em 24 de janeiro de 2017

O governo chinês prepara-se para impor novas restrições a investimentos de empresas do país no exterior para tentar coibir a saída de capital que vem pressionando o renminbi para baixo e drenando suas reservas internacionais, segundo fontes que viram um esboço das novas regras.

O Conselho de Estado está mais preocupado com os acordos de investimentos chineses no exterior acima de US$ 10 bilhões, segundo duas pessoas a par das deliberações do governo. Elas acrescentaram que compras de mais de US$ 1 bilhão também vão ser fiscalizadas se estiverem fora da área principal de atuação dos investidores. As estatais não poderão investir mais de US$ 1 bilhão em transações imobiliárias unitárias no exterior.

De acordo com dados do Ministério do Comércio, as compras no exterior feitas por empresas chinesas somaram US$ 146 bilhões nos primeiros dez meses do ano, já superando o recorde anual de US$ 121 bilhões em investimentos não financeiros fora da China registrado em 2015. O total deste ano inclui a oferta da ChemChina para comprar o grupo suíço de agronegócios Syngenta, de US$ 44 bilhões.

Os investimentos chineses na Europa no primeiro trimestre do ano somaram quase o triplo dos investimentos europeus na China, segundo a firma de análises econômicas Rhodium Group. Outro estudo recente da empresa revelou que, em 2015, pela primeira vez as aquisições feitas por empresas chinesas nos Estados Unidos superaram as feitas por americanas na China.

Em razão das grandes saídas de capital, o yuan desvalorizou-se 5,8% neste ano, que caminha para ser o pior na história para a moeda. A China vendeu dólares para tentar impedir a queda, o que levou as reservas internacionais do país a caírem para US$ 3,12 trilhões no fim de outubro, o menor montante desde março de 2011.

“Esta é uma jogada grande”, dísse o economista Wang Jun, do Center for lnternational Economic Exchange. “O governo intensificou os controles de capitais para evitar novas depreciações do renminbi.”

“Atendência de apreciação do dólar dos EFAe de depreciaçãodo renminbi é óbYia”, acrescentou Wang. “Elesestãopreocupados com a fuga de capital.”

Analistas e executivos de bancos disseram que Pequim também mostra preocupação com a qualidade dos investimentos chineses no exterior. O governo teme que algumas transações estejam sendo feitas de forma precipitada, sem a devida análise das contas, simplesmente para lucrar com a valorização contínua do dólar em relação ao renminbi.

“Nãos se trata apenas de preocupações com as reservas internacionais”, dísse Xiang Songzuo, economista-chefe do Agricultural Bank of China. “Parte das aquisições no exterior de nossas estatais levou a enormes perdas no passado.”

Caso o documento do Conselho de Estado seja aprovado formalmente, vai explicitar uma mudança de estratégia já em andamento de maneira informal. Executivos de bancos e de outras empresas dizem que as aprovações de compra de moedas estrangeiras pela Administração Estatal de Câmbio (Safe, em inglês) que antes eram rotineiras passaram a levar dois ou até três meses desde que o pânico tomou conta dos mercados de câmbio e de ações da China em janeiro.

“São aplicações mais restritas das regras da Safe”, disse Zhao Xijun, especialista em finanças na Renmin University, em Pequim. “Antes, as regras estavam lá, mas ninguém lhes dava atenção.”

Na segunda-feira, em comunicado conjunto de quatro agências, entre as quais a Safe e o banco central, o governo informou que vai “combinar a crescente conveniência dos investimentos no exterior com prevenção contra riscos de investimentos no exterior”.

A China caminha para registrar pela primeira vez déficit nos investimentos externos diretos líquidos neste ano, segundo dados do balanço de pagamentos. Os investimentos estrangeiros na China superaram os chineses no exterior em todos os trimestres desde 1998 até meados do ano passado. A China teve déficits em quatro dos últimos cinco trimestres, incluindo o terceiro trimestre de 2016, quando houve déficit recorde de US$ 31 bilhões.

Apesar do aumento dos investimentos chineses no exterior, isso continua sendo apenas uma parte da saída total de capital Excluindo os investimentos externos diretos, a China teve um déficit na conta financeira e de capital de US$ 176 bilhões no terceiro trimestre. Essa saída de dinheiro considerado especulativo, inclui investimentos em ações e títulos de dívida, além de créditos de comércio exterior e outros empréstimos bancários.

Jonas Short, da firma de análises NSBO, que tem sede em Pequim, disseque as novas restrições são uma reação às recentes desvalorizações do renminbi, mas levantou dúvida sobre sua eficácia. “A decisão foi tomada agora em grande medida como resultado das altas saídas [de capital] em setembro”, disse. “Mas isso pode ser um jogo interminável. Assim que você estanca o fluxo de saída em um canal, eles vão encontrar outro e a ansiedade generalizada dos investidores tentando tirar seu dinheiro vai aumentar.” (Colaboraram Lucy Hornby, Yuan Yang e Wan Li)

Fonte: http://lacerdaelacerda.com.br/noticias-comercio-internacional/china-quer-barrar-investimentos-no-exterior/